domingo, 24 de abril de 2011

A Importância do Autocontrole no Tratamento do Diabetes

O que é automonitorização glicêmica capilar (AMGC)?
 


A automonitorização glicêmica capilar é o popular “pontinha de dedo”. É chamada de capilar, pois aferirmos a açúcar através do sangue presente nas artérias capilares, que são pequenos vasos do nosso corpo. As oscilações da taxa de açúcar no sangue são consideradas um dos grandes responsáveis pelo aparecimento de complicações em longo prazo. Portanto, considera-se uma grande vantagem o fato de portadores de diabetes reconhecerem a necessidade da AMGC e os valores seguros de glicemia. A IDF e as principais Sociedades de Diabetes do mundo recomendam que sejam observados os limites da glicemia pós-prandial, glicemia de jejum e os níveis de Hba1c. Atualmente, somente procedimentos invasivos como a AMGC e o CGMS (monitoramento continuo de glicose) fornecem informações precisas do perfil dos níveis glicêmicos diários dos pacientes.

Porque é importante que eu faça a AMGC?

Vários estudos demostram queda da HBA1C (ou seja, o melhor controle do diabetes) quando o indivíduo utiliza a AMGC com frequência. No entanto a AMGC é só uma ferramenta eficaz no autocontrole quando os resultados são revisados pelo endocrinologista e/ou pelos diabéticos com o objetivo de modificar o seu comportamento ou ajustar o tratamento de forma eficiente. A manutenção de níveis da glicemia que previnam o desenvolvimento e o progresso das complicações crônicas referentes ao Diabetes envolve um equilíbrio entre a ingesta alimentar, a atividade física e a terapia com drogas. A participação ativa e efetiva dos portadores de diabetes no controle e no tratamento de sua doença é um componente essencial para um bom tratamento. Para tanto, é necessário que eles tenham um nível de conhecimento adequado e estejam capacitados para proceder com mudanças comportamentais, ajustes no tratamento e tomada de decisões, estabelecendo o autocontrole como parte integrante de sua rotina diária.

Quem deve realizar a AMGC?

Todos os portadores de diabetes devem realizar a AMGC. No entanto, a quantidade de vezes ao dia varia conforme o tipo de diabetes, e seu tratamento. Para pacientes com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) e Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) que estão em tratamento com bomba de insulina ou múltiplas doses diárias de insulina e contagem de carboidratos, a recomendação é realizar entre 4 a 8 aferições por dia. Realizamos diversas vezes a AMGC justamente para calcular a dose de insulina a ser aplicada naquela refeição e também para verificar se a dose foi efetiva ou excessiva.
Já os indivíduos com DM2 não tratados com insulina podem realizar diversos esquemas, não havendo consenso atualmente. Neste caso, esquema varia conforme o objetivo listado abaixo:
1. Intensificar a educação do diabetes
2. Auxiliar na compreensão da doença
3. Ferramenta para avaliação glicêmica para otimizar a terapia e consequentemente um desfecho positivo
4.Tenha sintomas de hipoglicemia
5. Tenha infecções, esteja viajando ou sob stress.
6. Esteja fazendo ajuste ajustes na medicação, na alimentação e/ou atividade física
7. Esteja vivenciando piora dos valores da HBA1c
8. Esteja em dúvida ou necessitando de informações adicionais sobre a natureza da sua doença, e/ou impacto de seu tratamento (farmacológico e não farmacológico) sobre o controle glicêmico.
9. Esteja em período gestacional ou planejando engravidar

E o que é a monitorização contínua de glicose (CGMS)?

O CGMS é um aparelho utilizado pelo endocrinologista para identificar as oscilações de açúcar em pessoas com diabetes. Ele utiliza um sensor que é colocado sob a pele, em contato com a gordura, e também com um monitor externo do tamanho de um pager que armazena os dados de leitura da glicemia que são coletados pelo sensor a cada 5 minutos. Os indivíduos utilizam o sensor em um período de 3 a 5 dias. Assim temos por volta de 288 medidas por dia de glicose, o que chega a ser 72 vezes a mais de informação por dia do que a AMGC. É um aparelho “cego”, ou seja, a analise será realizada após sua utilização, assim como um aparelho de Holter de pressão arterial.
O CGMS serve para:
  1. Avaliar as oscilações glicêmicas,
  2. Pesquisar hipoglicemia noturna ou assintomática,
  3. Necessidade de reajuste da dose de insulina sem aumento da hipoglicemia,
  4. Durante o período de preconcepção e período gestacional

Além do CGMS temos parelhos para aferir a glicemia em tempo real acoplado à bomba de insulina. Através de ondas de rádio, o sensor envia informações ao aparelho de bomba de insulina o qual mostra em seu visor a tendência glicêmica. Este dispositivo é interessante, pois podemos ver a tendência da glicemia e tomar uma atitude antes da alteração. Por exemplo, podemos ver uma tendência de hiperglicemia e ajustarmos a dose de insulina para evitar a mesma. O mesmo com a tendência de hipoglicemia. Se o dispositivo mostra uma tendência para queda da glicemia, podemos ingerir algum alimento, evitando-a. O sistema de bomba de insulina mais o sensor de glicose também é chamado de "pâncreas artificial". No entanto, este nome pode causar um pouco de confusão, pois a bomba de insulina não libera a quantidade de insulina necessária para aquela glicemia automaticamente. Há necesidade do portador ver a tendência e tomar uma atitude, seja programando a bomba para liberar mais insulina, seja comendo algo.

Há dispositivos de monitorização glicêmica em tempo real não acoplados à bomba de insulina. Da mesma forma são interessantes para os DM1 que não queiram utilizar a bomba mas se preocupam com a oscilação glicêmica ou para DM2 que queriam monitorizar
de forma mais segura sua glicemia.




Em resumo, a AMGC deve ser baseada em uma decisão compartilhada entre o portador de diabetes e endocrinologista e deve estar ligada a um conjunto de instruções claras com ações a serem tomadas baseadas nos resultados obtidos com a AMGC.
O uso apropriado da AMGC pelos portadores de diabetes não tratados com insulina tem potencial de aperfeiçoar o controle de diabete através de ajustes regulares no tratamento baseados no resultado na AMGC, melhorando tanto o desfecho clínico como a qualidade de vida. Entretanto, o valor e a utilidade da AMGC podem se desenvolver dentro de um modelo de tratamento preventivo que seja baseado em monitorização continua e capacidade de ajustar o controle com o progresso de a doença no passar do tempo.

Dra Bibiana Prada de Camargo Colenci
Mestre em Endocrinologia e Diabetes
CRM 93718